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Indo além dos rótulos

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Você já deve ter ouvido este ditado: “Quem vê cara, não vê coração”. Parece simples seguir este sábio conselho de ver “o coração”, mas sabemos que não é tanto assim. Principalmente com as pessoas que já fazem parte das nossas vidas há bastante tempo, as pessoas que achamos que já conhecemos. São elas as que mais carregamos de rótulos e julgamentos.

Veja como vencê-los e levar seus relacionamentos a um nível de conexão muito maior!

  • Rótulos são necessários

Como assim rótulos são necessários? Sim. É natural que no processo de conhecer uma pessoa nova, a gente sinta a necessidade de ter algumas perguntas respondidas, por exemplo: “Quem você é?”, “O que você faz” ou “Do que você gosta”.

Saber que uma pessoa tem a mesma profissão ou religião que a minha, por exemplo, facilita a comunicação com ela. Rótulos são atalhos para a comunicação. Utilizá-los em nossas vidas é uma forma mais fácil de entender o mundo que nos cerca.

  • Rótulos são barreiras que precisamos vencer

Por outro lado, a maior barreira para a conexão humana são os rótulos. Nos nossos relacionamentos, de forma inconsciente, tomamos como ponto de partida os rótulos que cada um carrega. Desta forma, limitamos nossa percepção da totalidade do ser da outra pessoa.

Eles vão além das aparências físicas ou formações acadêmicas. Por incrível que pareça, rótulos como “mãe”, “pai”, “filh@”, “marido”, “esposa”, “chefe”, “amig@” podem ser bem pesados. Eles são carregados de expectativas que estão só esperando para serem quebradas, ou de árduos esforços para correspondê-las a qualquer custo.

Mães são seres humanos, mulheres, que já foram filhas, namoradas. Chefe é mãe ou pai, marido ou esposa, já foi aluno e funcionário. Marido é homem, que pode ser irmão, e já foi menino. Todos são seres humanos em constante mudança. Precisamos sempre nos lembrar que, se o mundo fosse uma empresa, todos nós estaríamos vestindo o uniforme “em treinamento”.

Os adjetivos que nos perseguem desde nossos primeiros dias de vida também fazem parte dos rótulos que nos imobilizam. “Você é muito teimoso”, “Ela é muito sorridente”, “Ele é preguiçoso”.

  • Comunicação Não-Violenta

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Vamos começar a ir além dos rótulos através do primeiro componente da Comunicação Não-Violenta: diferenciando observações de avaliações.

As observações são relatos de fatos que podem ser imediatamente verificáveis por qualquer pessoa que percebe algo. Relatos que sejam compatíveis com o que uma câmera filmadora pode captar.

As avaliações são nossas opiniões, pensamentos, impressões, julgamentos. Geralmente consistem de generalizações, ou rótulos.

​É muito mais fácil usar avaliações em vez de observações em nossas conversas. É mais fácil dizer “toda vez você faz isso” do que pensar com cuidado e dizer “das últimas 3 vezes você fez isso”. Usar avaliações é escolher o caminho aparentemente mais curto, mas ele acaba sendo o mais longo, pois nos distancia da conexão com o outro.​

Tendo como ponto de partida as avaliações, nós distorcemos por completo nossa leitura dos fatos, e assim ela adquire a cor dos medos, das esperanças e das projeções que habitam em nós.

Veja alguns exemplos:

AVALIAÇÕES (↓conexão)OBSERVAÇÕES (↑conexão)
“Você me ignorou o dia inteiro”.“Você é muito relaxado”.“Eu te liguei 5 vezes hoje e você não atendeu.”“Você não retornou nenhuma ligação minha hoje.”
“Eu arruinei a vida do cliente.”“Eu não sirvo para nada.”“Eu não entreguei o trabalho dentro do prazo combinado.”“Eu disse que entregaria o trabalho até ontem mas não entreguei.”
“Você é muito ruim em matemática.”“Você está prejudicando seu futuro.”“Você tirou nota 3 na prova de matemática.”“Sua professora disse que você dormiu durante as duas últimas aulas dela.”

Manter o foco nos acontecimentos é uma forma eficaz de gerar estratégias para solucionar os problemas. Assim conseguimos sair do ciclo vicioso das críticas e da culpabilização.

Permanecer no campo das críticas e a culpa é como estar em um incêndio. Não é possível respirar, nem enxergar uma saída. E aos poucos o relacionamento vai se desgastando.

  • Observar não é instintivo

Formamos nossas avaliações a partir dos nossos juízos de valor e julgamentos.

A espécie humana só chegou até aqui porque julgamos o que é bom e o que é ruim para nós. Para uma questão de sobrevivência, julgar que cobras e onças são perigosas foi essencial.

Porém chegamos ao ponto na civilização urbana que julgar tomou proporções exageradas. Julgamos sem nem mesmo observar e em questões muito distantes de serem tão vitais quanto sobrevivência.

A CNV não nos obriga a permanecermos completamente objetivos e a nos abstermos de avaliar. Ela apenas sugere que mantenhamos a separação entre nossas observações e nossas avaliações. Que saibamos reconhecer quando estamos observando, e quando estamos avaliando.

Pois ao combinarmos a observação com a avaliação, diminuímos a probabilidade de que os outros ouçam a mensagem que desejamos lhes transmitir. Em vez disso, é provável que eles a escutem como crítica e, assim, resistam ao que dizemos.

Pratique:

 

  • Procure trocar palavras e termos como “sempre”, “nunca”, “tudo”, “todo mundo”, “toda vez” por uma descrição específica de cada evento.
    • Não é fácil pois muitas vezes é preciso deixar para trás o que a memória não alcança mais. Fica mais difícil ainda em ambientes em que as conversas são escassas e só acontecem quando ninguém aguenta mais permanecer naquela situação. Por isso procure expor seus pensamentos e sentimentos em momentos próximos aos acontecimentos.
    • “Você nunca vem me visitar” pode ser dito de forma mais específica, por exemplo, “Nas últimas três vezes que te convidei para vir aqui em casa, você cancelou de última hora”.
  • O mesmo vale para os adjetivos. Quando vier aquele impulso de adjetivar alguém, fale sobre a ação dela, inclusive nos elogios.
    • “Você é o melhor marido”, por exemplo, pode ser complementado por “Fico muito feliz quando você faz um jantar para mim”.
    • “Você é inconsequente” também pode ser trocado por “Fico preocupada com você quando viaja sem me avisar”.
  • Pergunte antes de fazer afirmações. Se dê a oportunidade de saber mais sobre os acontecimentos antes de construir suas conclusões. Muitas vezes você fará descobertas que mudarão completamente sua forma de ver a situação.
    • “Por que você se atrasou?”, “Aconteceu alguma coisa?”, por exemplo podem ter respostas que te deixarão arrependido depois de ter dito “Você é muito irresponsável por ter se atrasado”.
  • Definitivamente o mais importante: Nos momentos de fortes emoções, principalmente da raiva, dê um passo para trás. Respire. Só assim é possível limpar o olhar de todos os julgamentos para conseguir ver a situação com o máximo de neutralidade. Foco nos acontecimentos!

Juliana Matsuoka

A Ju acredita que, seja consigo mesmo ou com outras pessoas, conversas melhores transformam e salvam vidas. Ela é aprendiz do seu próprio trabalho, é Coach e criadora do projeto Comunicação Consciente.