cnv no trabalho

Atenção nas relações de trabalho: Comunicação Não Violenta em ação

Quem nunca passou por situações e conversas difíceis em seu ambiente de trabalho? Para quem é mais difícil, líder ou colaborador? Quais as formas mais usuais de relações nas empresas ainda hoje?

A sensação comum que a maioria de nós já experimentou nessas circunstâncias dentro de uma instituição, seja como colaborador ou líder, foi de distanciamento, de não pertencimento e a sensação de falta de um canal efetivo de comunicação.

A maior parte das empresas acredita estar aberta ao diálogo interno com todos os membros da equipe, muitas vezes até repetem isso incessantemente, criando a impressão de que assim o canal de diálogo já existe. A intenção existe, o próximo passo seria o engajamento para a construção desse canal efetivo de comunicação e relação. Assim essa realidade torna-se possível dentro das relações entre os membros da equipe.  

Inseridos em uma rotina de atividades no ambiente de trabalho, com o passar do tempo é comum que não se permaneça atento ao próprio modo de agir e manejar as situações diárias. Menos atentos ainda à linguagem institucional do local, e acabamos muitas vezes por reproduzir um padrão de comunicação que nem sempre condiz com o que gostaríamos ou acreditamos ser melhor ou eficaz.

Isso acontece também pela praticidade que a rotina de trabalho acaba por vezes requerendo, e a comunicação e relações que são potenciais pilares sólidos para um ambiente mais produtivo, ficam para trás. 

Pedidos práticos do dia a dia feitos dentro dos preceitos da Comunicação Não Violenta (CNV) têm mais eficácia de serem atendidos com maior engajamento, já que é exposto para o interlocutor a real necessidade desse pedido, como também o sentimento envolvido para um dos membros da equipe ou para o grupo como um todo. Como alguém poderia se sentir engajado sem ao menos entender a importância de sua atividade dentro da equipe ou daquela dada circunstância?

Vivemos um momento de transição nas grandes empresas, em que muitas vêm repensando os fatores subjetivos nas relações institucionais que interferem na produtividade e lucratividade. Passou-se o tempo em que comissão e participação nos lucros mantinham alguém envolvido e oferecendo seu real potencial em seu ambiente de trabalho. 

Grandes empresas que vêm acompanhando as pesquisas sobre desenvolvimento humano no trabalho, estão alterando espaço físico, forma de manejar conflitos e a linguagem institucional. Por mais que não nos demos conta, se pararmos para refletir começamos a perceber e identificar a linguagem institucional de dada instituição de onde integramos alguma equipe. Essa linguagem é construída no dia a dia e retroalimentada, muitas vezes inconscientemente, pelas diversas pessoas que integram o grupo . 

Para de fato criarmos um espaço saudável e produtivo, sem dúvida a CNV é a ferramenta que vem cada vez mais sendo utilizada e efetiva nos resultados, trazendo estruturas sólidas para criar o real senso de equipe. 

Em outras palavras, não adianta eu dar recursos materiais se as necessidades das pessoas são diversas e em sua maioria impalpáveis.         

Claro que não seria possível satisfazermos todas as necessidades individuais de um determinado grupo, porém os estudiosos do desenvolvimento estão nos mostrando que possuímos necessidades muito parecidas. Se estivermos atentos, podemos criar formas na rotina relacional que envolvam essas necessidades.

Algumas das necessidades humanas básicas que Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta,  elencou após suas investigações são:

-Autonomia  

-Integridade (autenticidade, autovalorização, criatividade, significado)

-Interdependência (aceitação, apoio, apreciação, compreensão, confiança, consideração, empatia, encorajamento, honestidade, proximidade, respeito, segurança emocional)

-Lazer (diversão, riso)

-Comunhão espiritual (beleza, harmonia, inspiração, ordem, paz)

-Necessidades físicas (abrigo, água, alimento, ar, descanso, movimento, exercício).

Ao observarmos essa lista é bem provável que nos demos conta de alguma circunstância em que tivemos uma ou algumas dessas necessidades não atendidas e que não as comunicamos. Também que tenhamos percebido que alguém indiretamente tentou nos comunicar alguma necessidade e não tenhamos compreendido totalmente. 

Percebemos também que podemos criar situações e conversas que favoreçam esses itens com atitudes e manejos diários, isso começa pela forma de nos comunicarmos. No ambiente de trabalho solicitações são feitas a todo momento, com maior clareza sobre as necessidades envolvidas, o pedido pode ser feito e recebido com maior compreensão, e assim maior a possibilidade de não se tornarem exigências sem significado algum para o interlocutor. 

O pedido é o  quarto e último item a ser realizado dentro das técnicas da Comunicação Não Violenta, que se expressado de maneira clara possui maior potencial de criar proximidade e empatia. Nos três passos anteriores que integram a CNV estão: 

1) Observação

2) Sentimento

3) Necessidades

Na observação apenas observamos a situação que está acontecendo, ao que estão dizendo ou fazendo sem interpretações, depois tomamos consciência do nosso sentimento nesse momento, em seguida nos questionamos sobre qual a nossa necessidade em relação a essa circunstância. 

Vamos imaginar uma situação em que o colaborador se organiza para realizar e entregar suas atividades dentro do prazo estipulado pelo gestor, porém o gestor não consegue entregar o material necessário para o colaborador prosseguir com o trabalho. Acaba por corroborar para o colaborador passar noites acordado para entregar dentro do prazo estipulado, o que criaria uma situação desconfortável para esse colaborador, não é mesmo? O colaborador poderia falar para o gestor: “Você nunca cumpre o prazo que combinamos”. Com essa fala, a possibilidade de um diálogo desconfortável acontecer se tornaria ainda maior. 

Uma possível maneira de falar sobre as circunstâncias da forma mais neutra possível, comunicando sentimento e necessidades após identificá-los, poderia ser: “Nas últimas três semanas recebi os materiais para prosseguir com as atividades solicitadas dois dias depois do estabelecido no cronograma que fizemos juntos. Por conta do pouco tempo que sobra para eu realizar o trabalho, percebo que não estão saindo da melhor maneira que poderiam (observação). Venho me sentindo um pouco desanimado (sentimento) com esse projeto. Gostaria de alinhar os prazos para conseguir realizar tudo da melhor maneira (necessidade). Seria possível revermos o cronograma (pedido)?”

Em outra situação usual no ambiente de trabalho que poderíamos pensar na atuação da CNV seria naqueles momentos em que o gestor faz um pedido que não costuma fazer para um determinado membro da equipe, e não expressa em seu pedido a necessidade de estar pedindo algo não usual em uma situação de urgência. “Recolhe esses dados e envia para o setor “X” em duas horas”. Além de o colaborador não compreender o real motivo do que está sendo pedido, essa forma exclui o colaborador da situação vigente, o impedindo até de poder dar o seu melhor caso tivessem concedido a ele a possibilidade de compreender as circunstâncias.

O gestor poderia dizer algo assim: “Recebemos um relatório dizendo que não cumprimos o prazo estipulado e nos ameaçaram de processo judicial. Porém sei que cumprimos o prazo, fizemos juntos esse projeto (observação). Estou preocupado com essa situação (sentimento), pois nossa equipe perderia a credibilidade que temos. Preciso ver que estamos agindo com rapidez (necessidade). Você poderia enviar esses dados descritos para o setor X da melhor maneira e o mais rápido possível?”

Ainda hoje soa estranho falarmos de elementos como proximidade e empatia dentro do ambiente de trabalho, como se não pudessem fazer parte da área profissional. Parece que vínhamos nos esquecendo por um bom tempo que somos seres humanos com inúmeros potenciais e que antes de tudo somos seres sociais, ou seja, que existimos na relação com o outro. 

       A comunicação Não Violenta resgata e possibilita a existência de relações positivas em que visualizamos e validamos nossas necessidades e as dos outros. Em uma equipe isso gera um sentimento de “nós, de consideração, confiança, de segurança emocional para agir em conformidade com o todo da equipe. 

Afinal por que a CNV é interessante de ser inserida também no ambiente profissional? Por ela maximizar o envolvimento, respeito e engajamento, aumenta também a produtividade. As relações baseadas em medo de punição criam um espaço de competitividade, baixa cumplicidade e engajamento. Acaba-se gastando mais tempo em “apagar incêndios”, conversas e reuniões cansativas e pouco produtivas. 

Pessoas engajadas costumam produzir em um menor espaço de tempo e com maior aproveitamento de suas habilidades, já que elas têm espaço para serem expressadas. Tanto gestores como colaboradores querem um ambiente harmonioso para todas as pessoas envolvidas no trabalho, independente do cargo, já que maximiza o envolvimento e produtividade. 

No local em que costumamos passar mais horas semanais, podemos sem dúvida nos engajar para que essa transformação atual na gestão de equipes se espalhe para dentro da maior parte das empresas, contribuindo para maior produtividade, saúde e para uma sociedade melhor.

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