Quatro passos da CNV para transformar suas relações do caos à paz possível 

Já aconteceu com você de iniciar um diálogo disposto a ser compreendido ou a compreender o outro e sair com a sensação contrária, de distanciamento, como se tivessem conversado em uma língua desconhecida por ambos? 

 Talvez essa sensação seja a mais comum, talvez apenas a gente sinta, talvez seja propulsora de transformação.

Quantas vezes em nosso dia a dia desejamos ter conversas enriquecedoras, leves ou esclarecedoras com as pessoas e acabamos por experimentar o oposto?

 Sem dúvida alguma a maioria de nós já passou por algumas dessas experiências de maneiras bem parecidas, afinal somos muito parecidos em nossos comportamentos no momento de nos relacionarmos. Ainda mais por termos necessidades semelhantes em circunstâncias diferentes quando nos comunicamos em nossas relações.

Você gostaria de ter relações e conversas mais enriquecedoras e harmoniosas? Gostaria de encontrar uma forma de se expressar com maior clareza? Aqui você vai encontrar um guia prático e objetivo com os quatro pilares estruturais da Comunicação Não Violenta (CNV) e assim poder colocar em prática em suas relações cotidianas essa ferramenta que tem sido utilizada com êxito nos mais diversos contextos: familiar, escolar, institucional, relacionamentos íntimos etc. 

Interessante lembrar que a CNV foi estruturada pelo psicólogo Marshall Rosenberg, que após vivenciar situações de violência em sua infância começou a questionar a forma com que nos comunicamos, e na vida adulta se tornou um investigador das relações humanas, buscando ferramentas que pudessem proporcionar maior engajamento e paz nas relações. Em vida, ele viajava para mediar conflitos e levar programas de paz a regiões em guerra, como Ruanda, Sérvia e Croácia. 

A Comunicação Não Violenta é baseada em habilidades de comunicação e linguagem e nos ajuda a reformular a maneira pela qual ouvimos os outros e nos expressamos. Abre a possibilidade de termos respostas mais conscientes, baseadas na consciência do que estamos percebendo, sentindo e desejando. Amplia nossas chances de nos expressarmos com honestidade e clareza, e assim tornar nossas conversas em um meio de aproximação, conexão e transformação em nossas relações. 

A maior parte dos conflitos acontece por não estarmos atentos e conscientes da maneira com que nos expressamos e ouvimos em nossas relações, afinal fomos acostumados a fazer isso de forma automática e não responsiva. Nas divergências cotidianas nos acostumamos a procurar culpados e não por seres humanos que possuem necessidades tão parecidas com as nossas e que podem ser expressadas, compreendidas e propulsoras de relacionamentos mais saudáveis e leves.   

Os 4 elementos estruturais da Comunicação Não Violenta

4 passos da comunicação não violenta

Aqui vamos encontrar os quatro elementos em que a CNV está estruturada. Existe essa divisão, porém com a prática começamos a perceber que muitas vezes os quatro passos podem acontecer de maneira simultânea.

  1. Observação
  2. Sentimento
  3. Necessidade
  4. Pedido

Para podermos realizar o quarto componente precisamos identificar e expressar os três anteriores. Em uma situação cotidiana familiar uma mãe poderia expressar essas três coisas ao filho adolescente dizendo, por exemplo: “Pedro, quando eu vejo dois pratos sujos no sofá e mais três copos na mesa da televisão (observação), fico irritada (sentimento), porque preciso de mais organização no espaço que usamos em comum (necessidade). Ela poderia continuar com o quarto componente fazendo um pedido específico: “Você poderia colocar as louças sujas na pia ou na lava-louças?” O pedido específico acaba por clarificar o que estamos querendo da outra pessoa para enriquecer nossa vida ou deixá-la mais incrível.

Vamos agora falar sobre cada um dos quatro elementos.

Observação

O primeiro passo para começar a praticar a CNV em determinado momento de sua rotina é observar o que de fato está acontecendo naquela situação da maneira mais neutra e atenta possível, sem julgamento ou avaliação. Todos nós temos juízo de valor, que é como refletimos e determinamos o que acreditamos ser melhor e importante na vida, e isso é necessário e imprescindível para nossa identidade. O julgamento se difere do juízo de valor, uma vez que julga e afasta a possibilidade da escuta empática, desvalidando o interlocutor e consequentemente suas necessidades. Para criar conexão e aproximação em uma conversa é preciso estar disponível para observar a situação e em como ela reverbera interiormente. O que estamos vendo os outros dizerem ou fazerem que é enriquecedor ou não para nossa vida? E simplesmente dizer o que nos agrada ou não naquela situação.

Exemplo: “Nas duas últimas vezes que combinamos de tomar café, você chegou uma hora depois sem me avisar que se atrasaria…” Neste exemplo foi dito as circunstâncias de maneira neutra. Diferente de dizer: “Você sempre se atrasa.”  

Sentimento

Nesse segundo passo nos atentamos a como nos sentimos nessa situação que estamos vivenciando, qual sentimento identificamos ao observar aquela ação. Estamos habituados a não nos atentarmos e muito menos a falarmos dos sentimentos que as circunstâncias nos despertam. 

O usual é identificarmos e falarmos sobre comportamentos e atitudes. Identificar e comunicar os sentimentos em determinada situação, amplia a possibilidade de gerar aproximação e empatia. Como também nos traz maior clareza sobre nós mesmos nas diversas circunstâncias e a como costumamos responder a elas de maneira automática, sem termos nos dado conta do sentimento que despontou. 

Importante lembrar que uma situação nunca é o que nos desencadeia um sentimento, a situação pode apenas ser um estímulo, mas nunca a causa de como nos sentimos. 

Exemplo: “Nas duas últimas vezes que combinamos de tomar café, você chegou uma hora depois sem me avisar (observação). Quando isso acontece percebo que me sinto irritado (sentimento).” 

Necessidade

Após observarmos a situação atentamente e identificarmos o sentimento, o terceiro passo é reconhecermos qual necessidade está ligada a  esse sentimento. O Marshall Rosenberg diz que por trás de todo comportamento existe uma necessidade e que por trás de todo comportamento agressivo existe uma necessidade não atendida.  

Se pararmos para refletir sobre situações adversas que já vivenciamos é bem possível identificarmos momentos em que tivemos uma atitude reativa, afinal acabamos por responder impulsivamente tomados pelo sentimento e sem consciência da nossa real necessidade naquele momento, de modo a bloquear um possível canal de comunicação. 

 Exemplo: “Nas duas últimas vezes que combinamos de tomar café, você chegou uma hora depois sem me avisar (observação). Quando isso acontece percebo que me sinto irritado (sentimento), pois preciso de previsibilidade em nossos encontros (necessidade).”  

Pedido

pedidos-cnv

Agora que já observamos, identificamos sentimentos e necessidades, podemos fazer um pedido. Assim pode ficar mais claro para o interlocutor como seria a forma de agir que acreditamos ter potencial para a relação ser mais harmoniosa e menos conflituosa.

Exemplo: “Nas duas últimas vezes que combinamos de tomar café, você chegou uma hora depois sem me avisar (observação). Quando isso acontece percebo que me sinto irritado (sentimento), pois preciso de previsibilidade em nossos encontros para organizar melhor meus horários (necessidade). Você poderia me avisar assim que souber que não chegará a tempo do horário combinado? (pedido)” 

Até agora falamos e exemplificamos possibilidades de quando vamos falar algo para alguém em determinada situação. E quando é a situação oposta, alguém nos diz algo como no exemplo “Você sempre se atrasa! Você não me considera!” Ao invés de respondermos com outra frase que apenas criaria afastamento e mais discussão: “E você que….”, etc, podemos parar, nos colocarmos no lugar do outro e investigar qual a possível necessidade daquela pessoa naquele momento. Será que ela gostaria que eu desse mais previsibilidade e atenção para ela? Uma tentativa de criar empatia nesse instante, poderia ser: “Você está irritado comigo porque não te avisei que me atrasaria? E gostaria que eu te avisasse feito isso para não atrapalhar seus horários?” As chances de a conversa prosseguir com mais empatia e tranquilidade é muito maior.    

A prática da Comunicação Não Violenta nos torna investigadores de necessidades tanto nossas como também das outras pessoas e com o tempo vai se tornando cada vez mais fácil. Importante lembrar que nem sempre acertamos qual a necessidade da outra pessoa logo na primeira tentativa, mas abrimos espaço para ela poder dizer qual a sua necessidade como também para fazermos outras tentativas. Muitas vezes nosso interlocutor também não tem clareza da sua real necessidade naquele momento, porém ao demonstrarmos interesse em saber possibilita um canal de comunicação, como também abre portas para ele possivelmente começar a identificá-las e compreendê-las.

Quando escolhemos agir de acordo com a CNV é primordial que não percamos de vista nosso objetivo, pois no meio do caminho nem todas as pessoas a nossa volta estarão nessa mesma prática, o que requer de nós disponibilidade e empatia. Empatia com a gente mesmo também, pois exercitaremos a CNV em diversas situações e inicialmente as dificuldades parecerão maiores. Já que estaremos criando um novo modo de operarmos nas relações, algo que requer treino para nossa mente e consciência começar a operar de modo a tornar os passos da CNV o comum de agirmos em qualquer situação.                                                                                                                                                            

Pronto para começar a praticar CNV em suas relações? 

 

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